Se até na guerra se finge, para quê fingir uma guerra
Posted by Correspondente in Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Naquela manhã, impacientou-se com a sua preguiça; assentou o traseiro na cama, arqueou-se, depois aproximou-se sub-repticiamente e voltou a sentar-se a dois passos da cara do dono, observando-o com um olhar de atroz falsidade, querendo isto dizer que devia pôr-se dali para fora e deixar-lhe o lugar quente.
Divertido com esta táctica, Durtal não se mexeu e por sua vez olhou para ele. Era enorme, vulgar e no entanto estranho naquela veste com o meio ruivo da cinza de um velho coque, e cinzento como o pêlo das vassouras novas, aqui e além com pequenos aflocados brancos como as pelugens que volteiam sobre os tições mortos. Era um autêntico gato de telhado, alto de patas e comprido, com uma cabeça de fera muito regularmente estriada por ondas de ébano que rodeavam com braceletes negros e lhe alongavam os olhos com dois ziguezagues de tinta.
- Apesar do teu feitio desmancha-prazeres de solteirão monómano e sem paciência, és delicado - disse Durtal num tom insinuante para o animar.
Huysmans, J.-K.; Além; trad. Aníbal Fernandes, Lisboa; Assírio e Alvim; 2006
Felizmente que havia algumas excepções, quase sempre quando sofrias em silêncio, e o amor e a bondade, com a sua força, se sobrepunham a tudo o resto e te comoviam. Eram ocasiões raras, mas maravilhosas. Por exemplo, quando, antigamente, nos Verões quentes, te via dormitar na loja depois do almoço, os cotovelos apoiados na escrivaninha, ou quando, aos domingos, te juntavas a nós, esbaforido, quando íamos para o campo; ou quando a mãe esteve doente uma vez e tu te agarraste à estante dos livros a tremer e a chorar; ou quando, durante a minha última doença, me vieste visitar ao quarto da Ottla, sem fazer barulho, ficaste na soleira da porta, esticaste o pescoço para me ver e acenaste só com a mão para me não me incomodar. Nessas alturas, deitava-me e chorava de felicidade, como choro agora ao escrevê-lo. Tens também um sorriso muito especial e raro, tranquilo, satisfeito, acolhedor, e que pode fazer feliz aquele a quem se destina. Não me recordo de alguma vez na minha infância me ter sido concedido um sorriso assim, mas deve ter acontecido. Por que razão me irias tu negá-lo naquela altura, quando eu ainda te parecia ser inocente e era a tua grande esperança? Aliás, impressões mais agradáveis como essa, com o passar do tempo, só conseguiram aumentar o meu sentimento de culpa e tornar-me o mundo ainda mais incompreensível.
Kafka, Franz; Carta ao Pai; Edições Quasi; 2008
Tradução: João Barrento
As ratoeiras estão umas dentros das outras e disparam todas ao mesmo tempo
Posted by Actia in Literatura, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
CALVINO, Italo, Se numa noite de Inverno um viajante, Porto, Público Comunicação Social, 2002
Tradução: José Colaço Barreiros, Teorema
Importa soltá-lo por um pouco
Posted by Correspondente in Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Se numa noite de Inverno um Viajante...
Posted by F. F. in Literatura, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
- Eu? Eu não leio livros! - diz Irnerio.
- Então o que lês?
- Nada. Habituei-me tão bem a não ler que nem leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde miúdos e durante toda a vida fica-se escravo de toda a escrita que nos põem à frente. Se calhar também tive de fazer um esforço, nos primeiros tempos, para aprender a não ler, mas agora é já uma coisa natural. O segredo é não se recusar a olhar as palavras escritas, pelo contrário, tem de olhá-las intensamente até desaparecerem.
"Fora do Casario de Malbork" In Calvino, Italo, Se numa noite de Inverno um viajante, Teorema.
Trad. de Manuel Cardoso Gomes.
APOLLINAIRE, A Mulher Sentada
Trad. de Luiza Neto Jorge
Apollinaire alistou-se como voluntário na 1ª Guerra Mundial. Foi ferido na cabeça, com estilhaços de obus, sendo sujeito à prática de trepanação.
A culpa é sempre do Sócrates
Posted by Correspondente in Literatura, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Terramoto de Lisboa de 1755: castigo divino pelos crimes da Inquisição
- Haverá qualquer coisa a ganhar aqui!
- Qual será a razão suficiente deste fenómeno? - dizia Pangloss.
- Eis o fim do mundo - clamava Cândido.
Voltaire, Cândido
Falsos Telémacos
Posted by Anónimo in Literatura, Telemaquia, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Gin a body meets a body comin' thro' the rye!
Posted by Anónimo in Línguas, Literatura, Música, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
A não ser na China
Posted by Anónimo in Literatura, Oriente, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
- E Carlos?...
- Magnífico! Instalado em Paris, num delicioso apartamento dos Campos Elísios, fazendo a vida larga de um príncipe artista da Renascença...
Ao Vilaça, porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficara ainda «abalado». Vivia, ria, governava o seu faetonte no Bois - mas lá no fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memória da «semana terrível».
- Todavia os anos vão passando, Vilaça - acrescentou ele. - E com os anos, a não ser na China, tudo na Terra passa...
- Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.
- Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada de circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.
- Como assim, se também é um exercício corporal?
- Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.
Assis, Machado de, "Teoria do Medalhão - Diálogo", Um Homem Célebre: Antologia de Contos, 2ª edição, Lisboa, Edições Cotovia, 2007, pp. 31, 32.
Como acabar um romance
Posted by Correspondente in Literatura, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Charles Bukowski; Mulheres; tradução de Fernando Luís
Ou, afinal, o que é a literatura?
Posted by Actia in Literatura, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Além disso, Timmy Durrant não escutara Sófocles, nem Jacob Ésquilo.
O Jogo do Direito de Resposta
Posted by TELEMAQUIA in Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta, TLMQ
Desafiamos os nossos leitores a responderem aos textos citados na mesma moeda: literatura com literatura se paga!
As respostas, que poderão ser deixadas na caixa de comentários ou no nosso endereço de e-mail, serão posteriormente colocadas no blog como postagens.
Púrpura do jardim, pompa do prado,
gema de primavera, olho de abril...
Deu-se então a revelação. Marino viu a rosa, como Adão a pôde ver no Paraíso, e sentiu que ela estava na sua eternidade e não nas suas palavras e que podemos mencionar ou aludir mas não exprimir e que os altos e soberbos volumes que formavam, num ângulo da sala, uma penumbra de ouro não eram (como na sua vaidade chegou a sonhar) um espelho do mundo, mas sim uma coisa mais a acrescentar ao mundo.
Marino obteve esta iluminação na véspera da sua morte e Homero e Dante talvez a tenham obtido também.
"Uma rosa amarela" In Jorge Luis Borges, Poemas Escolhidos.
Tradução de Ruy Belo.
Apresentação
Pois foi para isto que atravessaste o mar, para saberes notícias
de teu pai: onde o cobriu a terra ou que destino foi o seu."
Odisseia , Canto III, 14-16.
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