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Se até na guerra se finge, para quê fingir uma guerra

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Um dia, sabe, à saída do quartel perguntei-lhe Não tens medo que os gajos te limpem? e ele todo borrado, teso como o preto patinador do jardim zoológico, disse-me que não, que não tinha medo nenhum. Eu, com medo do meu excesso de confiança principiei a pôr-me nervoso, a dizer para mim mesmo que ia tudo correr mal, que eles me iam furar as tripas, até que quando dei por mim tremia como o horizonte semi-aquático dos desertos. Só agora percebo, graças a este copo de vodka teatral, que quando nos olhámos, e os tiros já nos lambiam o suor, ele me dizia que combatia o medo com uma falsa confiança, e que eu lhe dizia que combatia a confiança com um falso medo. Dissemos isto um ao outro, como quem não diz, porque não o dissemos na verdade. Em ambos, faltou a coragem de dizer a nós próprios que fingíamos, que brincavamos ao Carnaval, que inventávamos sensações para com elas nos enganarmos. Sabe, o inimigo, do Salazar e dos seus eunucos ministros, estava ali a dois pés de distância.

António Lobo Antunes

Vã-guarda

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Excesso de novidade? Quem sabe? Repito que isso não é perigoso para a arte, mas tão somente para os artistas medíocres. Esses, por mais que façam, continuarão medíocres, que importa ao fim e ao cabo, que para além disso, se mostrem absurdos?

Guillaume Apollinaire; A Mulher Sentada; trad. Luíza Neto Jorge

A rotina e o gato

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Se Durtal chegasse a casa antes das onze da noite, tinha-o à espera antes da porta do vestíbulo; arranhava a madeira, e mesmo antes de ele entrar na sala começava a miar; depois movia as langorosas íris de ouro verde, esfregava-se contra as calças, saltava para cima dos móveis, punha-se de pé a imitar um pequeno cavalo empinado; e quando Durtal se aproximava, por amizade dava-lhe grandes cabeçadas. Depois das onze não ficava à frente dele, limitava-se a arquear o dorso mas sem carícias; e se ainda era mais tarde ficava quieto, lamentava-se e grunhia, caso ele se atrevesse a alisar-lhe o alto da cabeça ou a coçar-lhe o pescoço debaixo do queixo.
Naquela manhã, impacientou-se com a sua preguiça; assentou o traseiro na cama, arqueou-se, depois aproximou-se sub-repticiamente e voltou a sentar-se a dois passos da cara do dono, observando-o com um olhar de atroz falsidade, querendo isto dizer que devia pôr-se dali para fora e deixar-lhe o lugar quente.
Divertido com esta táctica, Durtal não se mexeu e por sua vez olhou para ele. Era enorme, vulgar e no entanto estranho naquela veste com o meio ruivo da cinza de um velho coque, e cinzento como o pêlo das vassouras novas, aqui e além com pequenos aflocados brancos como as pelugens que volteiam sobre os tições mortos. Era um autêntico gato de telhado, alto de patas e comprido, com uma cabeça de fera muito regularmente estriada por ondas de ébano que rodeavam com braceletes negros e lhe alongavam os olhos com dois ziguezagues de tinta.
- Apesar do teu feitio desmancha-prazeres de solteirão monómano e sem paciência, és delicado - disse Durtal num tom insinuante para o animar.

Huysmans, J.-K.; Além; trad. Aníbal Fernandes, Lisboa; Assírio e Alvim; 2006

Carta ao Pai

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Felizmente que havia algumas excepções, quase sempre quando sofrias em silêncio, e o amor e a bondade, com a sua força, se sobrepunham a tudo o resto e te comoviam. Eram ocasiões raras, mas maravilhosas. Por exemplo, quando, antigamente, nos Verões quentes, te via dormitar na loja depois do almoço, os cotovelos apoiados na escrivaninha, ou quando, aos domingos, te juntavas a nós, esbaforido, quando íamos para o campo; ou quando a mãe esteve doente uma vez e tu te agarraste à estante dos livros a tremer e a chorar; ou quando, durante a minha última doença, me vieste visitar ao quarto da Ottla, sem fazer barulho, ficaste na soleira da porta, esticaste o pescoço para me ver e acenaste só com a mão para me não me incomodar. Nessas alturas, deitava-me e chorava de felicidade, como choro agora ao escrevê-lo.

Tens também um sorriso muito especial e raro, tranquilo, satisfeito, acolhedor, e que pode fazer feliz aquele a quem se destina. Não me recordo de alguma vez na minha infância me ter sido concedido um sorriso assim, mas deve ter acontecido. Por que razão me irias tu negá-lo naquela altura, quando eu ainda te parecia ser inocente e era a tua grande esperança? Aliás, impressões mais agradáveis como essa, com o passar do tempo, só conseguiram aumentar o meu sentimento de culpa e tornar-me o mundo ainda mais incompreensível.


Kafka, Franz; Carta ao Pai; Edições Quasi; 2008
Tradução: João Barrento

As ratoeiras estão umas dentros das outras e disparam todas ao mesmo tempo

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"(...) Eu tentava fugir infiltrando-me com movimentos rastejantes para o centro da espiral onde as linhas serpenteavam que nem cobras seguindo a contorção dos membros de Irina, desenlaçados e inquietos, numa lenta dança, em que não é o ritmo que importa mas o juntar e o desfazer das linhas serpentinas. São duas cabeças de serpente que Irina agarra com ambas as mãos, e que reagem ao seu aperto exasperando a sua atitude à penetração rectilínea, enquanto ela pretendia pelo contrário que o máximo de força contida correspondesse a uma flexibilidade de réptil que se dobra para a alcançar em contorções impossíveis. Porque era este o primeiro artigo de fé do culto que Irina instituíra: que nós abdicássemos do preconceito da verticalidade, da linha recta, do sobrevivente secreto orgulho masculino que continuara a acompanhar-nos mesmo aceitando a nossa condição de escravos de uma mulher que não admitia entre nós ciúmes ou supremacias de género algum. - Para baixo - dizia Irina e a sua mão premia a cabeça de Valeriano na nuca, afundando os dedos nos cabelos lanosos de cor ruiva de estopa do jovem economista, sem deixá-lo erguer a cara acima do seu regaço - mais para baixo! - e entretanto olhava-me com olhos de diamante, e queria que eu olhasse, queria que os nossos olhares seguissem também por caminhos serpentinos e contínuos. Eu sentia o seu olhar não me abandonar um só instante, e entretanto sentia sobre mim outro olhar que me seguia a todo o momento e em toda a parte, o olhar de um poder invisível que de mim só esperava uma coisa: a morte, não importa se a que devia levar os outros se a minha. Esperava o instante em que o laço do olhar de Irina afrouxasse. Ei-la semicerrar os olhos, eis-me a rastejar na sombra, atrás das almofadas dos sofás do braseiro, onde Valeriano deixou a sua roupa dobrada em perfeita ordem como é seu hábito, rastejo na sombra das pestanas de Irina cerradas, procuro nos bolsos, na carteira de Valeriano, escondo-me nas trevas das pálpebras fechadas dela, nas trevas do grito que sai da sua garganta, acho a folha dobrada em quatro com o meu nome escrito a aparo de aço por baixo da fórmula das condenações à morte por traição, assinada e confirmada com os carimbos regulamentares."

CALVINO, Italo,
Se numa noite de Inverno um viajante, Porto, Público Comunicação Social, 2002

Tradução: José Colaço Barreiros, Teorema

Importa soltá-lo por um pouco

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É preciso estar sempre bêbado. Tudo reside nisso: eis a questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos inclina para a terra, precisiais de embriagar-vos sem tréguas.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade. Mas embriagai-vos.

Charles Baudelaire; O Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa); trad. Jorge F. Lourenço

Se numa noite de Inverno um Viajante...

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- Não criticas os livros que lês?
- Eu? Eu não leio livros! - diz Irnerio.
- Então o que lês?
- Nada. Habituei-me tão bem a não ler que nem leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde miúdos e durante toda a vida fica-se escravo de toda a escrita que nos põem à frente. Se calhar também tive de fazer um esforço, nos primeiros tempos, para aprender a não ler, mas agora é já uma coisa natural. O segredo é não se recusar a olhar as palavras escritas, pelo contrário, tem de olhá-las intensamente até desaparecerem.

"Fora do Casario de Malbork" In Calvino, Italo, Se numa noite de Inverno um viajante, Teorema.
Trad. de Manuel Cardoso Gomes.

Poesia em tempos de guerra

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Doce poesia! a mais bela das artes! Nunca as decepções conseguiram vencer o amor que desde a mais tenra infância te consagrei, a ti que em nós acendes o poder criador e nos aproximas da divindade! A própria guerra só conseguiu aumentar o poder que a poesia sobre mim exerce e é graças a uma e a outra que o céu doravante se confunde com a minha cabeça estrelada. Doce poesia! lamento que estes incertos tempos me não permitam entregar-me à tua inspiração no tocante à matéria deste livro, mas a guerra continua. Tenho, antes de para lá voltar, de acabar esta obra e a prosa é o que melhor se coaduna com a minha pressa.


APOLLINAIRE, A Mulher Sentada
Trad. de Luiza Neto Jorge



Apollinaire alistou-se como voluntário na 1ª Guerra Mundial. Foi ferido na cabeça, com estilhaços de obus, sendo sujeito à prática de trepanação.

Bagatelas

Posted by Anónimo in

―Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma bagatella... Mas emfim, constituem um começo; são uma ligeira habilitação para conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrepito e está gottoso: como homem, como funccionario do celeste imperio, é mais inutil em Pekin e na humanidade, que um seixo na bocca d'um cão esfomeado. Mas a transformação da substancia existe: garanto-lh'a eu, que sei o segredo das coisas... Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido, e restitue-o além ao conjuncto das fórmas como vegetal viçoso. Bem póde ser que elle, inutil como Mandarim no Imperio do Meio, vá ser util n'outra terra como rosa perfumada ou saboroso repôlho. Matar, meu filho, é quasi sempre equilibrar as necessidades universaes. É eliminar aqui a excrescencia para ir além supprir a falta. Penetre-se d'estas solidas philosophias. Uma pobre costureira de Londres anceia por vêr florir, na sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flôr consolaria aquella desherdada; mas na disposição dos sêres, infelizmente, n'esse momento, a substancia que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem d'Estado... Vem então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro leva-lhe os intestinos; enterram-no, com tipoias atraz; a materia começa a desorganisar-se, mistura-se á vasta evolução dos atomos―e o superfluo homem de governo vai alegrar, sob a fórma de amor perfeito, a agua furtada da loura costureira. O assassino é um philanthropo! Deixe-me resumir, Theodoro: a morte d'esse velho Mandarim idiota traz-lhe á algibeira alguns milhares de contos. Póde desde esse momento dar pontapés nos poderes publicos: medite na intensidade d'este gozo! É desde logo citado nos jornaes: reveja-se n'esse maximo da gloria humana! E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer ti-li-tin. Eu não sou um barbaro: comprehendo a repugnancia d'um gentleman em assassinar um contemporaneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é repulsivo o agonisar d'um corpo humano. Mas aqui, nenhum d'esses espectaculos torpes... É como quem chama um criado... E são cento e cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus apontamentos... O Theodoro não duvída de mim. Sou um cavalheiro:―provei-o, quando, fazendo a guerra a um tyranno na primeira insurreição da justiça, me vi precipitado d'alturas que nem Vossa Senhoria concebe... Um trambulhão consideravel, meu caro senhor! Grandes desgostos! O que me consola é que o OUTRO está tambem muito abalado: porque, meu amigo, quando um Jehovah tem apenas contra si um Satanaz, tira-se bem de difficuldades mandando carregar mais uma legião d'archanjos; mas quando o inimigo é o homem, armado d'uma penna de pato e d'um caderno de papel branco―está perdido... Emfim são seis mil contos. Vamos, Theodoro, ahi tem a campainha, seja um homem.


Eça de Queirós, O Mandarim

A culpa é sempre do Sócrates

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... o homem é tão propenso ao sistema e à conclusão abstracta que está pronto a desfigurar propositadamente a verdade, está pronto a ser cego e surdo, só para justificar a sua lógica.

Fiodor Dostoiévski; Cadernos do Subterrâneo; tradução de Filipe Guerra e Nina Guerra; Assírio e Alvim; 2000
(o título do post serve apenas para aumentar o número de visitantes do blog, ou para outra coisa qualquer)

1 de Novembro de 1755

Posted by F. F. in ,


Terramoto de Lisboa de 1531: castigo divino pela presença dos judeus em Portugal
Terramoto de Lisboa de 1755: castigo divino pelos crimes da Inquisição

Apenas puseram pé na cidade, chorando a morte do seu benfeitor, sentem a terra tremer debaixo dos pés, o mar agitar-se mesmo dentro do porto e despedaçar os barcos ancorados; turbilhões de chamas e cinzas cobrem as ruas e as praças públicas; as casas desmoronam-se, os tectos esboroam-se sobre os alicerces, e os destroços dispersam-se. Trinta mil habitantes, de todas as idades e sexos, foram esmagados sob as ruínas. O marinheiro dizia, assobiando e praguejando.

- Haverá qualquer coisa a ganhar aqui!

- Qual será a razão suficiente deste fenómeno? - dizia Pangloss.

- Eis o fim do mundo - clamava Cândido.

Voltaire, Cândido

Falsos Telémacos

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Eu gostava do Dr. Margaride. Camarada do papá em Viana, muitas vezes lhe ouvira cantar, ao violão, a xácara do conde Ordonho. Tardes inteiras vaguara com ele poeticamente, pela beira da água, no Mosteiro, quando a mamã fazia raminhos silvestres à sombra dos amieiros. E mandou-me as amêndoas mal eu nasci, à noitinha, em Sexta-Feira da Paixão. Além disso, mesmo na minha presença, ele gabava francamente à titi o meu intelecto e a circunspecção dos meus modos.

- O nosso Teodorico, D. Patrocínio, é moço para deleitar uma tia... Vossa Excelência, minha rica senhora, tem aqui um Telémaco!

Eu corava, modesto.

Queirós, Eça de, A Relíquia, Colecção Mundo das Letras, Porto, Porto Editora, 2009, pp. 23, 24.

Gin a body meets a body comin' thro' the rye!

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A não ser na China

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Mas, passado ano e meio, num lindo dia de Março, Ega reapareceu no Chiado. E foi uma sensação! Vinha esplêndido, mais forte, mais trigueiro, soberbo de verve, num alto apuro de toilette, cheio de histórias e aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou poesia que não fosse do Japão ou da China, e anunciando um grande livro, o «seu livro», sob este título grave de crónica heróica - «Jornadas da Ásia».

- E Carlos?...

- Magnífico! Instalado em Paris, num delicioso apartamento dos Campos Elísios, fazendo a vida larga de um príncipe artista da Renascença...

Ao Vilaça, porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficara ainda «abalado». Vivia, ria, governava o seu faetonte no Bois - mas lá no fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memória da «semana terrível».

- Todavia os anos vão passando, Vilaça - acrescentou ele. - E com os anos, a não ser na China, tudo na Terra passa...


Eça de Queirós, Os Maias, Capítulo XVIII

Diálogo

Posted by Anónimo in

- Tu, meu filho, se não me engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas na esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofremos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

- Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.

- Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada de circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.

- Como assim, se também é um exercício corporal?

- Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

Assis, Machado de, "Teoria do Medalhão - Diálogo", Um Homem Célebre: Antologia de Contos, 2ª edição, Lisboa, Edições Cotovia, 2007, pp. 31, 32.

Como acabar um romance

Posted by Correspondente in ,

Abri uma lata de atum branco Star-Kist. Conservado em água de nascente. Peso líquido, 250 gramas.


Charles Bukowski; Mulheres; tradução de Fernando Luís

Ou, afinal, o que é a literatura?

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Para o Jorge.


Os Gregos - pois foi dos Gregos que falaram - ao fim e ao cabo, depois de se lavar a boca com todas as literaturas do mundo, incluindo chinesa e russa (mas estes eslavos não são civilizados), é sempre o sabor dos Gregos que fica. Durrant citou Ésquilo - Jacob, Sófocles. É verdade que nem os gregos teriam entendido, nem nenhum professor poderia deixar de apontar - enfim, não importa; para que serve o grego senão para se declamar aos gritos em Haverstocy Hill de madrugada?

Além disso, Timmy Durrant não escutara Sófocles, nem Jacob Ésquilo.

Davam-se ares, triunfantes; a ambos parecia que tinham lido todos os livros do mundo; que conheciam todos os pecados, as paixões, a alegria. As civilizações rodeavam-nos como flores prontas a ser colhidas. Vinham heras lamber-lhe os pés como ondas prontas para navegar. E passando os olhos por tudo isto no meio do nevoeiro, da luz dos candeeiros, das sombras de Londres, os dois rapazes decidiram em favor da Grécia.

«Devemos ser», disse Jacob, «as únicas pessoas do mundo que sabem o que os Gregos realmente queriam dizer».


WOOLF, Virginia, O Quarto de Jacob, tradução de Maria Teresa Guerreiro, Lisboa, Cotovia, 1989.

Prefácio ao Dorian Gray

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The artist is the creator of beautiful things.
To reveal art and conceal the artist is art's aim.
The critic is he who can translate into another manner or a new material his impression of beautiful things.
The highest as the lowest form of criticism is a mode of autobiography.
Those who find ugly meanings in beautiful things are corrupt without being charming. This is a fault.
Those who find beautiful meanings in beautiful things are the cultivated. For these there is hope.
They are the elect to whom beautiful things mean only beauty.
There is no such thing as a moral or an immoral book.
Books are well written, or badly written. That is all.
The nineteenth century dislike of realism is the rage of Caliban seeing his own face in a glass.
The nineteenth century dislike of romanticism is the rage of Caliban not seeing his own face in a glass.
The moral life of man forms part of the subject-matter of the artist, but the morality of art consists in the perfect use of an imperfect medium. No artist desires to prove anything. Even things that are true can be proved.
No artist has ethical sympathies. An ethical sympathy in an artist is an unpardonable mannerism of style.
No artist is ever morbid. The artist can express everything.
Thought and language are to the artist instruments of an art.
Vice and virtue are to the artist materials for an art.
From the point of view of form, the type of all the arts is the art of the musician. From the point of view of feeling, the actor's craft is the type.
All art is at once surface and symbol.
Those who go beneath the surface do so at their peril.
Those who read the symbol do so at their peril.
It is the spectator, and not life, that art really mirrors.
Diversity of opinion about a work of art shows that the work is new, complex, and vital.
When critics disagree, the artist is in accord with himself.
We can forgive a man for making a useful thing as long as he does not admire it. The only excuse for making a useless thing is that one admires it intensely.
All art is quite useless.


Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray (1981)

O Jogo do Direito de Resposta

Posted by TELEMAQUIA in , ,

A folha de poesia que a Telemaquia costumava afixar semanalmente junto ao Departamento de Estudos Portugueses da FCSH corresponde agora à rubrica bloguista Literatura com Direito de Resposta, que por ora subdividimos em prosa e em poesia.

Desafiamos os nossos leitores a responderem aos textos citados na mesma moeda: literatura com literatura se paga!

As respostas, que poderão ser deixadas na caixa de comentários ou no nosso endereço de e-mail, serão posteriormente colocadas no blog como postagens.

Uma rosa amarela

Posted by F. F. in ,

Nem naquela tarde nem na outra morreu o ilustre Giambattista Marino que as bocas unânimes da Fama (para usar uma imagem que lhe foi cara) proclamaram o novo Homero e o novo Dante, mas o facto imóvel e silencioso que então aconteceu foi na verdade o último da sua vida. Cumulado de anos e de glória, o homem morria num vasto leito espanhol de colunas lavradas. Nada custa imaginar, a poucos passos, uma serena sacada voltada para o poente e, mais abaixo, mármores e loureiros e um jardim que duplica as suas escadarias numa água rectangular. Uma mulher colocou numa taça uma rosa amarela: o homem murmura os versos inevitáveis que até a ele, para falar com sinceridade, já o aborrecem um pouco:

Púrpura do jardim, pompa do prado,
gema de primavera, olho de abril...

Deu-se então a revelação. Marino viu a rosa, como Adão a pôde ver no Paraíso, e sentiu que ela estava na sua eternidade e não nas suas palavras e que podemos mencionar ou aludir mas não exprimir e que os altos e soberbos volumes que formavam, num ângulo da sala, uma penumbra de ouro não eram (como na sua vaidade chegou a sonhar) um espelho do mundo, mas sim uma coisa mais a acrescentar ao mundo.

Marino obteve esta iluminação na véspera da sua morte e Homero e Dante talvez a tenham obtido também.

"Uma rosa amarela" In Jorge Luis Borges, Poemas Escolhidos.
Tradução de Ruy Belo.