And yet there is no clamor of carriages and horses.
You ask: "Sir, how can this be done?"
"A heart that is distant creates its own solitude."
I pluck chrysanthemums under the eastern hedge,
Then gaze afar towards the southern hills.
The mountain air is fresh at the dusk of day;
The flying birds in flocks return.
In these things there lies a deep meaning;
I want to tell it, but have forgotten the words.
"Drinking Poem", Tao Qian. Tr. Tony Barnstone and Chou Ping
Fonte: China The Beautiful
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas
para desenraizar as árvores.
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes e os ângulos agudos.
Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar; morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.
Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...
O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.
Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redacção, das que elogiam tudo,
me tem fechado a porta.
A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.
Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.
A odulação repugna os sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...
E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!
Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia à tarde, francamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!
Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, ou rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?
Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!
Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde
Dido e Eneias
Posted by Actia in Comemorações, Mundo Clássico, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
Com tais palavras, Eneias, derramando lágrimas, tentava apaziguar o ânimo aceso em raiva da que o olhava de través. Ela, voltando a cabeça para o lado, mantinha os olhos pregados no chão e a sua fisionomia não se alterou com o discurso que ele começara mais do que se ela fosse um duro penedo, uma imóvel estátua de mármore marpésio. Finalmente retirou-se e hostil fugiu para um bosque sombrio, onde o esposo de outrora corresponde ao seu afecto e lhe dá em troca amor igual.
Mesmo assim Eneias, perturbado com a sua injusta sorte, fica a olhá-la de longe com os olhos rasos de lágrimas, enquanto ela se afasta, e tem pena dela.
Vergílio, Eneida, Canto VI, Bertrand, Lisboa, 2005
Tradução: Luís M.G. Cerqueira
Self Service - uma vida de cão
Posted by Actia in Literatura, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos das salas dos cinemas
de mão distraídas procurando
a solução da noite
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida «transcendente»
vida de cão
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras
numa terra de murmúrios e gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»
Os teus mitos esperam-te
já impacientes
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro
Importa soltá-lo por um pouco
Posted by Correspondente in Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta, Telemaquia: Prosa com Direito de Resposta
Ratos e gatos
Posted by C. in Portugal: um retrato social, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.
Burgueses somos nós todos
ó literatos.
Burgueses somos nós todos
ratos e gatos.
Burgueses somos nós todos
por nossas mãos.
Burgueses somos nós todos
que horror irmãos.
Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.
Mário Cesariny, Nobílissima Visão
Pero en el sueño de un poeta ciego...
Posted by C. in Línguas, Literatura, Telemaquia, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
Vas arribant a l'illa i ara saps
el que vol dir la vida, el que és l'atzar.
El teu arc serà pols damunt la lleixa.
Pols seran el teler i la seva peça.
Els pretendents que acampen a l'eixida
són ombres que Penèlope somia.
Vas arribant a l'illa: els roquerars,
com el temps l'Odissea, els bat la mar.
Ningú no ha teixit mai la teva absència
ni ha desteixit l'oblit sense cap fressa.
Per més que, a voltes, la raó ho ignori,
Penèlope és una ombra del teu somni.
Vas arribant a l'illa: els gavians
que cobreixen la platja no es mouran
quan la travessis sense deixar empremta,
perquè no has existit: ets la llegenda.
Potser hi va haver un Ulisses mort a Troia,
i potser va plorar lo alguna dona,
però en el somni d'un poeta cec
continues salvant-te. Al front d'Homer,
etern i rigorós, cada trenc d'alba
un solitari Ulisses desembarca.
ULISES EN AGUAS DE ITACA
qué es el azar. Vivir, qué significa.
Tu arco será polvo en un estante.
Polvo será el telar y la pieza que teje.
Los pretendientes, que en el patio acampan,
son sombras de los sueños de Penélope.
Vas llegando a la isla mientras bate
el mar contra las rocas de la costa,
igual que el tiempo contra la Odisea.
Nadie tejió nunca tu ausencia. Nadie
vino tampoco a destejer tu olvido.
Por más que, a veces, la razón lo ignore,
Penélope es la sombra de tu sueño.
Vas llegando a la isla: las gaviotas
cubren la playa y no se moverán
cuando al pasar no dejes huella alguna,
pues tu no existes: eres la leyenda.
Quizá un lejano Ulises murió en Troya,
y quizá lo lloró alguna mujer,
pero en el sueño de un poeta ciego
continúas salvándote:
en la frente de Homero, riguroso,
eterno, cada vez que rompe el alba
un solitario Ulises desembarca.
Joan Margarit, Llum de pluja
Literatura pseudo-intelectual da praça... das flores
Posted by Correspondente in Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
PRAÇA DAS FLORES N.º 5
Tarde chuvosa de Verão a redimir
o luminoso e opressivo cansaço de Lisboa.
Abrigo-me numa taberna agora sombria
devido ao cinzento súbito do céu.
Aqui o tempo é uma ferida menor, vejo-o
pelas tardes sempre iguais destes homens
a jogar dominó, a zaragatear por vezes
acerca de importantes questões,
metafísicas inerentes a este jogo.
Que calma, esta do vencido
pagando cervejas aos vencedores,
o vinho tépido servido por alguém
que sem pressas nem angústias
envelhece por detrás do balcão.
É uma calma suave e perturbante, talvez
como a chuva lá fora, e encanta-me
esta singeleza profunda, a sedução de
exauridos olhares que a vinho sobrevivem.
Dir-se-ia ter nos meus ombros
toda a tristeza do mundo, ainda que
o mundo pouco valha ao pé desta taberna
na tarde molhada da cidade. E contudo
sinto-me estranho como em qualquer lugar,
espião não da casa do amor mas na da
morte quotidianamente vivida.
A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesae pedir outro martini, fresco
se faz favor.
Manuel de Freitas; Todos Contentes e Eu Também, Campo das Letras, 2000.
[...] The fragrant flag-roots in my father's fields [...]
Posted by C. in Literatura, Natura, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta

And I behold once more
My old familiar haunts; here the blue river,
The same blue wonder that my infant eye
Admired, sage doubting whence the traveller came,--
Whence brought his sunny bubbles ere he washed
The fragrant flag-roots in my father's fields,
And where thereafter in the world he went.
Look, here he is, unaltered, save that now
He hath broke his banks and flooded all the vales
With his redundant waves.
Here is the rock where, yet a simple child,
I caught with bended pin my earliest fish,
Much triumphing,--and these the fields
Over whose flowers I chased the butterfly,
A blooming hunter of a fairy fine.
And hark! where overhead the ancient crows
Hold their sour conversation in the sky:--
These are the same, but I am not the same,
But wiser than I was, and wise enough
Not to regret the changes, tho' they cost
Me many a sigh. Oh, call not Nature dumb;
These trees and stones are audible to me,
These idle flowers, that tremble in the wind,
I understand their faery syllables,
And all their sad significance. The wind,
That rustles down the well-known forest road--
It hath a sound more eloquent than speech.
The stream, the trees, the grass, the sighing wind,
All of them utter sounds of 'monishment
And grave parental love.
They are not of our race, they seem to say,
And yet have knowledge of our moral race,
And somewhat of majestic sympathy,
Something of pity for the puny clay,
That holds and boasts the immeasurable mind.
I feel as I were welcome to these trees
After long months of weary wandering,
Acknowledged by their hospitable boughs;
They know me as their son, for side by side,
They were coeval with my ancestors,
Adorned with them my country's primitive times,
And soon may give my dust their funeral shade.
Ralph Waldo Emerson, Nature
Aprendo com abelhas mais do que com aeroplanos.
Posted by C. in Literatura, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
Aprendo com abelhas mais do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata - cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão -
antes que das coisas celestiais.
Pessoas parecidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
Manoel de Barros, Retrato do Artista quando Coisa
Do Livro do Caminho e da Virtude de Lao Tse
Posted by F. F. in Filosofia, Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
Lao Zi escreveu no Tao Te Qing:
O sábio sabendo o que sabe de si próprio
Não se expõe
Não se gaba
Não faz alarde da sua importância
Assim
Despreza a vaidade e o exibicionismo
e apenas conserva o discernimento
e o controlo de si mesmo.
XVIII
Saudoso já deste Verão que vejo.
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra.
Ricardo Reis, Poesia
PONGE, Francis, Alguns Poemas - O Partido Tomado pelas Coisas
Cotovia, 1996
Para bom entendedor... um dístico basta!
Posted by Correspondente in Telemaquia: Poesia com Direito de Resposta
De acordo: Ser...
Parvo!
Apresentação
Pois foi para isto que atravessaste o mar, para saberes notícias
de teu pai: onde o cobriu a terra ou que destino foi o seu."
Odisseia , Canto III, 14-16.
Telemaquia:
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telemaquia@live.com.pt
O Jogo do Direito de Resposta: Literatura e Intertextualidade
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