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1922- 2010

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Encontrou-o. Seis vezes passara por Lisboa, esta era a sétima. Vinha do sul, dos lados de Pegões. Atravessou o rio, quase noite, na última barca que aproveitara a maré. Não comia há quase vinte e quatro horas. Trazia algum alimento no alforge, mas, de cada vez que ia levá-lo à boca, parecia que sobre a sua mão outra mão se pousava, e uma voz lhe dizia, Não comas, que o tempo é chegado. Sob as águas escuras do rio, via passar os peixes a grande profundidade, cardumes de cristal e prata, longos dorsos escamosos ou lisos. A luz interior das casas coava-se através das paredes, difusa como um farol no nevoeiro. Meteu-se pela Rua Nova dos Ferros, virou para a direita na igreja da Nossa Senhora da Oliveira, em direcção ao Rossio, repetia um itinerário de há vinte e oito anos. Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas, que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada. Havia multidão em S. Domingos, archotes, fumo negro, fogueiras. Abriu caminho, chegou-se às filas da frente, Quem são, perguntou a uma mulher que levava uma criança ao colo, De três sei eu, aqueles além são pai e filha que vieram por culpas de judaísmo, e o outro, o da porta, é um que fazia comédias de bonifrates e se chamava António José da Silva, dos mais não ouvi falar.

São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.

José Saramago, Memorial do Convento

O Homem sem Nome... 1943 - 2010

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O Sol, um enorme disco vermelho, tocava o horizonte. No oásis tudo se aquietara, animais e plantas, sentindo os dedos da noite que chegava.

Rashid estendeu no chão o tapete das orações. Os seus olhos viraram-se para o deserto.

Como hei-de eu viver, agora? Com que palavras posso rezar?

Ajoelhou fitando o Sol e as suas mãos ergueram-se lentamente, fazendo o gesto ritual.

Tu, Devaiah, és Deus.
Tu vives e sorris em nós,
em cada gota do nosso sangue,
em cada lágrima do nosso pranto.

Jornada: Da Literatura como experiência de pensamento

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JORNADA: DA LITERATURA COMO EXPERIÊNCIA DE PENSAMENTO
19 de Maio
FCSH, edifício ID, sala 1.05
Organização: Silvina Rodrigues Lopes, Jean-Charles-Darmon, Golgona Anghel

“O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.”
Alberto Caeiro

Foucault (com Russel) Deleuze (com Carroll, Kafka ou Melville), Badiou (com Beckett ou Pessoa), Derrida (com Joyce ou Genet), Rancière (com Mallarmé, Flaubert) conseguiram, durante a segunda metade do século vinte, dar voz a uma constelação conceptual que não só se alimenta da literatura mas potencia os seus efeitos.
Esta relação não nos deixa indiferentes e é fundamental para entender que a literatura também pensa. Nela e através dela surgem questões, esboçam-se conceitos. Formam-se conceitos em andamento, verdadeiras personagens conceptuais, diriam Deleuze e Guattari, que deixam entrever a fulguração dum acontecimento do pensamento. A filosofia e a literatura são inseparáveis: “são necessárias as duas [...] como se fossem duas asas ou duas barbatanas”. Uma aliança produtiva, diríamos.
O nosso encontro não pretende, no entanto, colocar a questão apenas do lado da filosofia e assim estudar como é que os filósofos se apropriam da literatura. Não vamos pensar a literatura simplesmente como se fosse essa dimensão das margens da filosofia, mas antes colocar em questão o estatuto “filosófico” que atravessa as margens das produções literárias. (ver programa)

Grupo de Literatura e Filosofia
CEIL Centro de Estudos do Imaginário Literário
http://literaturaefilosofia.wordpress.com

A noiseless patient spider

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A noiseless patient spider,
I mark’d where on a little promontory it stood isolated,
Mark’d how to explore the vacant vast surrounding,
It launch’d forth filament, filament, filament, out of itself,
Ever unreeling them, ever tirelessly speeding them.

And you O my soul where you stand,
Surrounded, detached, in measureless oceans of space,
Ceaselessly musing, venturing, throwing, seeking the spheres to connect them,
Till the bridge you will need be form’d, till the ductile anchor hold,
Till the gossamer thread you fling catch somewhere, O my soul.

Walt Whitman, Leaves of Grass

Vanitas vanitatis et omnia vanitas

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Foto: http://www.brisaink.com.br/

"Considera que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida."


Violante do Céu, "Vozes de uma dama de dentro de uma sepultura que fala a outra dama que presumida entrou em uma Igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos; e se assentou junto a um túmulo que tinha este epitáfio que leu curiosamente [...]"

Parnaso Lusitano

Crítica Textual Genética

Posted by Actia in

Pourquoi, à l époque de l'ordinateur, s'intéresser à l'écriture manuscrite?
Pourquoi redoubler la masse des textes littéraires publiés par celle des notes, plans, brouillons rédactionnels et autres documents de genèse?
Parce que le manuscrit, loin de n'être que support de signifiants graphiques figés, est aussi espace d'inscription, lieu de mémoire, trace d'un processus qu'il est possible de reconstruire. Comprendre comment un projet mental, un vague désir d'écrire se transforment, moyennant élaborations et accidents, relances et impasses, en texte, voire un oeuvre; expliquer comment l'analyse des manuscrits de genèse ouvre à une nouvelle dimesion de la littérature.


Grésillon, Almuth, Eléments de critique génétique, Paris, PUF, 1994

Estética Cristista

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A diferença substancial entre o paganismo e os sistemas índios e cristista, repercute-se, manifesta-se como na metafísica e na ética, na estética também.
Um sistema religioso, como o cristista, em que tomam sobrado relevo os sentimentos íntimos de cada indivíduo em que o interesse do espírito se concentra em seus próprios movimentos, não devia ter outra acção estética - pelo menos fundamentalmente - que não fosse a da expressão dos sentimentos íntimos que não fosse a confissão da alma. O artista cristão busca, acima de tudo, exprimir o que sente. Nisto reside a substância da sua doutrina estética. Ela sofreu, é certo, em certos períodos, e mormente em o chamado Renascença, um correctivo pagão. Mas a pura estética cristista não é a estética pagã, cujo em breve veremos; é a estética da expressão, substancialmente.

Ricardo Reis; Prosa; ed. M. Parreira da Silva; página 92

Curso Livre de Estudos Avançados de Literatura

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Tu que o disseste, acusa-te

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Sim, nós não progredimos senão na ciência. E com isso o que progredimos deveras? Progrediram, em verdade, os nossos conhecimentos? Não progrediram: nós não sabemos nada mais, essencialmente, sobre o silencioso centro das coisas. Valeu então o progredirmos porque os progressos da ciência nos são úteis? Úteis como, e úteis em quê? Porque aumentaram o nosso conforto, a nossa felicidade? Julgais com verdadeira sinceridade que somos mais felizes do que os gregos, que a nossa vida tem mais conforto e alegria e beleza do que a deles? Não o julgais, bem o sei. Em que progredimos, portanto?
Transportamo-nos mais depressa de um ponto para o outro. Trocamos palavras mais rapidamente através de distâncias. Vestem-nos tecidos vindos de muito mais longe. Mas nem um grão mais de felicidade veio ter connosco. Nem uma gota mais de ciência refresca a nossa fronte. Se olharmos para o fundo do que sabemos, do que temos e do que somos, veremos que, perante o mundo e a vida, a nossa visão não é mais lúcida nem mais calma, que não somos felizes, que o medo da morte pesa sobre nós como decreto, que os laços da sensualidade riscam-nos sobre o corpo como outrora.


(...)


Confusos é tudo o que somos. Perdemos a visão lúcida do mundo, e a inteira visão lúcida de nós-mesmos. Enfebrecemos e envelhecemos. O que há de novo em nós, sobre o que a Grécia tinha, é a velhice.

Canción 31

Posted by C. in

Canto, río, con tus aguas:
...De piedra, los que no lloran.
De piedra, los que no lloran.
De piedra, los que no lloran.
...Yo nunca seré de piedra.
Lloraré cuando haga falta.
Lloraré cuando haga falta.
Lloraré cuando haga falta.
...Canto, río, con tus aguas:
...De piedra, los que no gritan.
De piedra, los que no ríen.
De piedra, los que no cantan.
...Yo nunca seré de piedra.
Gritaré cuando haga falta.
Reiré cuando haga falta.
Cantaré cuando haga falta.
...Canto, río, con tus aguas:
...Espada, como tú, río.
Como tú, también, espada.
También, como tú, yo espada.
...Espada, como tú, río,
bladiendo al son de tus aguas:
...De piedra, los que no lloran.
De piedra, los que no gritan.
De piedra, los que no ríen.
De piedra, los que no cantan.

Rafael Alberti, Baladas y Canciones del Paraná

Viagem ao fim da noite

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Every night and every morn
Some to misery are born,
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.

Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.

William Blake, Auguries of Innocence

As ratoeiras estão umas dentros das outras e disparam todas ao mesmo tempo

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"(...) Eu tentava fugir infiltrando-me com movimentos rastejantes para o centro da espiral onde as linhas serpenteavam que nem cobras seguindo a contorção dos membros de Irina, desenlaçados e inquietos, numa lenta dança, em que não é o ritmo que importa mas o juntar e o desfazer das linhas serpentinas. São duas cabeças de serpente que Irina agarra com ambas as mãos, e que reagem ao seu aperto exasperando a sua atitude à penetração rectilínea, enquanto ela pretendia pelo contrário que o máximo de força contida correspondesse a uma flexibilidade de réptil que se dobra para a alcançar em contorções impossíveis. Porque era este o primeiro artigo de fé do culto que Irina instituíra: que nós abdicássemos do preconceito da verticalidade, da linha recta, do sobrevivente secreto orgulho masculino que continuara a acompanhar-nos mesmo aceitando a nossa condição de escravos de uma mulher que não admitia entre nós ciúmes ou supremacias de género algum. - Para baixo - dizia Irina e a sua mão premia a cabeça de Valeriano na nuca, afundando os dedos nos cabelos lanosos de cor ruiva de estopa do jovem economista, sem deixá-lo erguer a cara acima do seu regaço - mais para baixo! - e entretanto olhava-me com olhos de diamante, e queria que eu olhasse, queria que os nossos olhares seguissem também por caminhos serpentinos e contínuos. Eu sentia o seu olhar não me abandonar um só instante, e entretanto sentia sobre mim outro olhar que me seguia a todo o momento e em toda a parte, o olhar de um poder invisível que de mim só esperava uma coisa: a morte, não importa se a que devia levar os outros se a minha. Esperava o instante em que o laço do olhar de Irina afrouxasse. Ei-la semicerrar os olhos, eis-me a rastejar na sombra, atrás das almofadas dos sofás do braseiro, onde Valeriano deixou a sua roupa dobrada em perfeita ordem como é seu hábito, rastejo na sombra das pestanas de Irina cerradas, procuro nos bolsos, na carteira de Valeriano, escondo-me nas trevas das pálpebras fechadas dela, nas trevas do grito que sai da sua garganta, acho a folha dobrada em quatro com o meu nome escrito a aparo de aço por baixo da fórmula das condenações à morte por traição, assinada e confirmada com os carimbos regulamentares."

CALVINO, Italo,
Se numa noite de Inverno um viajante, Porto, Público Comunicação Social, 2002

Tradução: José Colaço Barreiros, Teorema

Ἄτροπος ... Λάχεσις ... Κλωθώ

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The Three Fates, The Triumph of Death
Tapestry; Netherlands; Early 16th century; Victoria and Albert Museum; no. 65&A-1866



The three fates, Clotho, Lachesis and Atropos, represent Death in this tapestry, as they triumph over the fallen body of Chastity. In mythology the Fates controlled the span of human life; Clotho was the spinner, Lachesis was the drawer of lots, and Atropos represented the inevitable end to life.

This is a fragment from a larger tapestry, from a series based on the poem I Trionfi (The Triumphs), written by the Italian poet Petrach between 1352 and 1374. The poem described a series of allegorical visions.

Zaccone?

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Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes e os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar; morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redacção, das que elogiam tudo,
me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A odulação repugna os sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia à tarde, francamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, ou rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

Importa soltá-lo por um pouco - I

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- E agora que me tinha instalado na árvore mais alta do bosque - prosseguiu a Pomba, elevando a voz num guincho, - e agora que pensava estar finalmente livre delas, tinham logo de vir a contorcer-se do céu. Malditas serpentes!
- Mas eu não sou uma serpente, estou-te a dizer! - disse Alice. - Sou... sou uma...
- Bem! O que é que tu és? - perguntou a Pomba. - Bem vejo que estás a tentar inventar alguma coisa!
- Eu... eu sou uma menina - disse Alice, um pouco duvidosa, lembrado-se das diversas transformações que sofrera naquele dia.

Lewis Carroll; Alice no País das Maravilhas; trad. Margarida Vale de Gato; pg 60

Revista Lusitana - Nova Série

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Estão já disponíveis em formato pdf os 10 primeiros números da Revista Lusitana - Nova Série, editada pelo Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro.

Self Service - uma vida de cão

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Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude
Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão
E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos das salas dos cinemas
de mão distraídas procurando
a solução da noite
Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça
Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida «transcendente»
vida de cão
Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado
Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado
Até aos últimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras
E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios e gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»
Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes
Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro

Alexandre O’Neill

Eu sou a morsa!

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You see he held his handkerchief in front, so that the Carpenter couldn't count how many he took...
Lewis Carroll, Through the Looking-Glass

Sartre is watching you, and you, and you, and everybody...

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Sartre quer reduzir tudo no homem ao "projecto inicial" ou seja àquilo que ele é inicialmente, ou àquilo que ele age inicialmente visto que ser é agir. A essência do homem define-se pela sua existência. É a acção que define o ser. E acção é liberdade.

(...)

Diga-nos senhor Sartre que é livre de ser estrábico. Que o conflito dos seus olhos é o fruto de uma livre escolha.


Vergílio Ferreira; Diário Inédito; página 118

A quien pueda interesar: el Golem

Posted by C. in

Nada casual podemos admitir en un libro citado por una inteligencia divina, ni siquiera el número de las palabras o el orden de los signos; así lo entendieron los cabalistas y se dedicaron a contar, combinar y permutar las letras de la Sagrada Escritura, urgidos por el ansia de penetrar los arcanos de Dios. Dante, en el siglo XIII, declaró que todo pasaje de la Biblia tiene cuatro sentidos, el literal, el alegórico, el moral y el analógico. Escoto Erígena, más consecuente con la noción de divinidad, ya había dicho que los sentidos de la Escritura son infinitos, como los colores de la cola del pavo real. Los cabalistas hubieron aprobado este dictamen; uno de los secretos que buscaron en el texto divino fue el de la creación de seres orgánicos. De los demonios se dijo que podían formar criaturas grandes y macizas, como el camello, pero no finas y delicadas, y el rabino Eliezerles negó la facultad de producir algo de tamaño inferior a un grano de cebada. «Golem» se llamó al hombre creado por combinaciones de letras; la palabra significa, literalmente, «una materia amorfa o sin vida».

En el Talmud (Sanhedrín, 65b) se lee:

«Si los justos quisieran crear un mundo, podrían hacerlo. Combinando las letras de los inefables nombres de Dios, Rava conseguió crear un hombre y lo mandó a Rav Zera. Éste le dirigió la palabra; como el hombre no respondía, el rabino le dijo:

- Eres una creación de la magia; vuelve a tu polvo.

Dos maestros solían cada viernes estudiar las leyes de la Creación y crear un ternero de tres años, que luego aprovechaban para la cena*»

La fama occidental del Golem es obra del escritor austriaco Gustav Meyrink, que en el quinto capítulo de su novela onírica, Der Golem (1915), escribe así:

«El origen de la historia remonta al siglo XVII. Según perdidas fórmulas de la cábala, un rabino** construyó un hombre artificial - el llamado Golem - para que éste tañera las campanas en la sinagoga y hiciera los trabajos pesados. No era, sin embargo, un hombre como los otros y apenas lo animaba una vida sorda y vegetativa. Ésta duraba hasta la noche y debía su virtud al influjo de una inscripción mágica, que le ponían detras de los dientes y que atraía las libres fuerzas siderales del universo. Una tarde, antes de la oración de la noche, el rabino se olvidó de sacar el sello de la boca del Golem y éste cayó en un frenesí, corrió por las callejas oscuras y destrozó a quienes se le pusieron delante. El rabino, al fin, lo atajó y rompió el sello que lo animaba. La criatura se desplomó. Sólo quedó la raquítica figura de barro, que aún hoy se muestra en la sinagoga de Praga.»

Eleazar de Worms ha conservado la fórmula necesaria para construir un Golem. Los pormenores de la empresa abarcan veintitrés columnas en folio y exigen el conocimiento de «los alfabetos de las doscientas veintiuna puertas» que deben repetirse sobre cada órgano del Golem. En la frente se tatuará la palabra «Emet», que significa «Verdad». Para destruir la criatura, se borrará la letra inicial, porque así queda la palabra «met», que significa «muerto».

Notas:
* Parejamente, Schopenhauer escribe: «En la página 325 del primer tomo de su Zauberbibliothek (Biblioteca mágica), Horst compendia así la doctrina de la visionaria inglesa Jane Lead: "Quien posee fuerza mágica, puede, a su arbitrio, dominar y renovar el reino mineral, el reino vegetal y el reino animal; bastaría, por consiguiente, que algunos magos se pusieran de acuerdo para que toda la Creación retornara al estado paradisíaco"» (Sobre la Voluntad en la Naturaleza, VII).
** Judah Loew ben Bezabel.

BORGES, Jorge Luis e GUERRERO, Margarita, (1967) El libro de los seres imaginarios, Madrid, Alianza Editorial, 2007, pp. 116-118.